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Por que ciclistas estão consumindo mais carboidratos?

Rolando BonaccorsiRolando Bonaccorsi

Durante anos, a alimentação durante o exercício foi associada principalmente à necessidade de evitar a queda de energia e retardar a fadiga, menciona Rolando Bonaccorsi. Atualmente, estratégias de alta ingestão de carboidratos ganharam espaço no ciclismo de resistência, especialmente em competições longas e de elevada intensidade. Essa mudança acompanha os avanços no conhecimento sobre absorção intestinal, metabolismo energético e disponibilidade de combustível durante esforços prolongados.

Por que a recomendação de carboidratos mudou?

Os carboidratos representam uma importante fonte de energia durante exercícios intensos. Parte deles fica armazenada nos músculos e no fígado na forma de glicogênio, mas essas reservas são limitadas. Conforme o esforço se prolonga, a ingestão durante a atividade ajuda a disponibilizar combustível e reduzir o risco de esgotamento energético. Essa reposição também contribui para sustentar a intensidade do exercício, especialmente quando o organismo começa a utilizar uma parcela significativa das reservas disponíveis.

Segundo Rolando Bonaccorsi, tradicionalmente, recomendações para exercícios prolongados trabalhavam com quantidades próximas de 30 a 60 gramas por hora, podendo chegar a 90 gramas em determinadas condições. Atualmente, estratégias superiores a 90 gramas ganharam espaço no ciclismo competitivo, com alguns atletas utilizando aproximadamente 120 gramas por hora. Essa mudança acompanha a busca por maior disponibilidade energética durante provas extensas, nas quais a manutenção do desempenho depende de um abastecimento contínuo ao longo do percurso.

Essa evolução está relacionada ao desenvolvimento de formulações nutricionais e à maior compreensão dos mecanismos de absorção. Entretanto, quantidades elevadas não representam uma necessidade universal. Um treino curto, uma sessão leve e uma competição de várias horas apresentam exigências metabólicas diferentes. Por isso, a definição da ingestão precisa considerar o objetivo da atividade, a preparação do atleta e sua capacidade de tolerar os carboidratos durante o esforço.

Como o organismo consegue absorver quantidades maiores?

O intestino utiliza mecanismos específicos para transportar diferentes tipos de carboidratos. A glicose depende principalmente de um transportador chamado SGLT1, enquanto a frutose utiliza outra via, associada ao GLUT5. Combinar essas fontes permite aproveitar mecanismos distintos de absorção intestinal. Dessa maneira, o organismo pode absorver uma quantidade maior de carboidratos durante o exercício, reduzindo a dependência de uma única via de transporte, que apresenta capacidade limitada.

Por isso, produtos destinados ao exercício prolongado frequentemente utilizam misturas de maltodextrina ou glicose com frutose. De acordo com Rolando Bonaccorsi, essa combinação pode aumentar a quantidade de carboidratos disponibilizada ao organismo em comparação com a utilização exclusiva de uma única fonte. A proporção entre esses componentes também influencia a estratégia nutricional, especialmente quando o objetivo é alcançar ingestões elevadas sem sobrecarregar um único mecanismo de absorção intestinal.

O intestino também precisa ser treinado?

Assim como músculos e sistema cardiovascular se adaptam ao treinamento, o trato gastrointestinal pode desenvolver maior tolerância à ingestão durante o exercício. Essa prática, conhecida como treinamento intestinal, consiste em experimentar quantidades e combinações de carboidratos progressivamente durante sessões planejadas. O objetivo é preparar o sistema digestivo para receber e processar o combustível necessário, permitindo que o ciclista mantenha sua estratégia nutricional mesmo durante esforços prolongados.

A adaptação é importante porque consumir grandes volumes sem preparação pode provocar náuseas, distensão abdominal e diarreia. Temperatura, intensidade do esforço, hidratação e concentração das bebidas também influenciam o conforto digestivo. Uma estratégia tolerada em um treino moderado pode apresentar dificuldades durante uma competição intensa. Por isso, o aumento da ingestão deve acontecer gradualmente, permitindo identificar quais quantidades e combinações são mais adequadas às características individuais do atleta.

Nesse contexto, o interesse de Rolando Bonaccorsi pelo ciclismo de estrada permite associar o tema à preparação que antecede os desafios de resistência. A alimentação precisa ser testada em condições semelhantes às previstas para a atividade, evitando introduzir produtos desconhecidos ou quantidades muito superiores às habituais no dia da prova. Reproduzir durante os treinos os horários de consumo, os tipos de suplementos e a intensidade esperada ajuda a identificar possíveis dificuldades antes da competição.

Gerard Montier

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