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Em mercado que se consolida, não agir também tem um preço

Pedro Daniel MagalhãesPedro Daniel Magalhães

O número de fusões e aquisições envolvendo empresas de médio porte no Brasil vem crescendo de forma consistente, impulsionado por juros em trajetória de queda e por grandes grupos com caixa acumulado em busca de expansão. Pedro Daniel Magalhães, executivo com atuação em mercado corporativo e gestão financeira, observa que, nesse tipo de ciclo, ficar parado enquanto o setor se reorganiza também é uma escolha, mesmo que pareça uma posição neutra.

Empresas que não se movem durante uma onda de consolidação não ficam exatamente como estavam: ficam relativamente menores frente a concorrentes que ganharam escala, e essa diferença tende a se acumular com o tempo.

O que está impulsionando essa onda de consolidação?

A combinação de juros mais baixos, maior liquidez disponível para investimento e grandes grupos que acumularam caixa em anos anteriores criou um ambiente favorável para aquisições estratégicas em diversos setores. Segmentos historicamente fragmentados, com muitos players pequenos e regionais, tendem a ser os primeiros a passar por esse tipo de reorganização.

Nesses setores, compradores buscam ganho de escala, redução de custos operacionais e eliminação de concorrência direta, o que tende a concentrar o mercado em torno de um número menor de operações maiores e mais estruturadas.

Por que empresas médias estão no centro desse movimento?

O chamado middle market, formado por empresas grandes o suficiente para sustentar operações estruturadas, mas ainda pequenas para se adaptar rápido, tem sido o protagonista da maior parte dessas transações. Conforme explana Pedro Magalhães, esse segmento combina um atributo raro: escala relevante o bastante para interessar compradores estratégicos e agilidade suficiente para negociar em condições melhores do que companhias muito grandes.

Essa posição intermediária também é temporária por natureza: à medida que o setor se consolida ao redor dela, a empresa média tende a se tornar alvo de aquisição ou precisa, ela própria, assumir o papel de consolidadora. É raro uma empresa permanecer nesse meio-termo por muito tempo sem que o mercado a empurre para um lado ou outro.

As três respostas possíveis diante da consolidação

Diante desse cenário, uma empresa média tem, essencialmente, três caminhos: buscar ser adquirida por um grupo maior, capturando valor enquanto ainda tem poder de negociação; unir forças com um concorrente de porte parecido, formando uma operação mais competitiva; ou assumir o papel de consolidadora, comprando negócios menores para ganhar escala antes que outros o façam.

Pedro Daniel Magalhães
Pedro Daniel Magalhães

Nenhuma dessas opções é intrinsecamente melhor. A escolha depende da capacidade de caixa da empresa, do apetite dos sócios para diluição ou endividamento, e de quão avançado já está o processo de consolidação no setor específico em que ela atua. Setores em estágio inicial de consolidação ainda permitem que a empresa escolha seu papel; setores mais maduros restringem as opções disponíveis.

O risco de simplesmente não decidir

O problema, segundo Pedro Daniel Magalhães, não está em escolher qualquer um desses caminhos, mas em não escolher nenhum e deixar que o mercado decida pela empresa. Enquanto concorrentes ganham escala por meio de aquisições, quem permanece parado perde poder de negociação com fornecedores, capacidade de investir em tecnologia e, eventualmente, participação de mercado.

Esse tipo de erosão costuma ser lento e pouco perceptível no curto prazo, o que torna mais fácil adiar a decisão até que as opções disponíveis já sejam bem piores do que seriam alguns anos antes.

O que essa decisão realmente exige da empresa?

Decidir como reagir a um ciclo de consolidação setorial exige diagnóstico claro sobre a própria posição competitiva, não apenas sobre o valor que a empresa acredita merecer em uma eventual venda. Entender se o negócio tem escala para comprar, estrutura para se fundir ou urgência para vender é o primeiro passo antes de qualquer negociação. No fim, Pedro Daniel Magalhães avalia que o maior risco em mercados que consolidam não é escolher o caminho errado, mas demorar demais para escolher algum.

Gerard Montier

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