Em um contexto marcado pela expansão acelerada das cidades brasileiras, Marcello José Abbud, empresário e especialista em soluções ambientais, analisa o crescimento de um tipo de resíduo que raramente ocupa o centro do debate público apesar de seu volume expressivo: os resíduos da construção civil. Entulho de obras, demolições e reformas chega a representar, em muitos municípios, mais de um terço de todo o material descartado, superando inclusive o lixo domiciliar em massa total.
Esse volume colossal segue, em grande parte, para destinos irregulares. Terrenos baldios, margens de rios e vias públicas tornam-se depósitos improvisados de entulho, gerando enchentes, proliferação de vetores e degradação da paisagem urbana.
Por que o entulho representa um problema tão particular?
O resíduo da construção civil tem características que o distinguem do lixo comum. Boa parte é composta por materiais inertes como concreto, argamassa, cerâmica e madeira, que não se decompõem e ocupam volume permanente quando mal destinados. Ao mesmo tempo, grande parcela desse material é tecnicamente reaproveitável, o que torna o descarte irregular um desperdício duplo: ambiental e econômico.
Conforme aponta Marcello José Abbud, a fragmentação da geração agrava o cenário. Enquanto o lixo domiciliar tem ponto de coleta definido, o entulho é produzido por inúmeras obras dispersas, muitas informais, o que dificulta o controle e abre brecha para o descarte clandestino realizado por transportadores irregulares conhecidos popularmente.
O que a legislação determina sobre os resíduos da construção?
A Resolução CONAMA 307/2002 estabeleceu a classificação dos resíduos da construção civil e atribuiu aos geradores a responsabilidade por sua destinação adequada. Municípios passaram a ter de elaborar planos de gerenciamento desses resíduos, prevendo áreas de triagem, transbordo e reciclagem. A Política Nacional de Resíduos Sólidos reforçou essas obrigações ao integrar o entulho ao conjunto de resíduos submetidos à gestão estruturada.

Na prática, contudo, a fiscalização permanece frágil em grande parte do território. Conforme detalha Marcello José Abbud, a existência de pontos de entrega voluntária e de áreas de triagem licenciadas é condição básica para que o gerador tenha alternativa legal ao descarte irregular, e a ausência dessa infraestrutura empurra o material para destinos clandestinos.
Reciclagem de entulho: do resíduo ao agregado
A tecnologia de reciclagem de resíduos da construção já está consolidada e gera produtos com mercado definido. Usinas de reciclagem processam o entulho em britadores e peneiras, transformando-o em agregados reciclados que substituem a brita e a areia em aplicações como sub-base de pavimentação, fabricação de blocos e concretos não estruturais. O custo desses agregados costuma ser competitivo frente aos materiais de extração mineral.
Em termos práticos, a reciclagem reduz a pressão sobre jazidas naturais, diminui o volume enviado a aterros e fecha um ciclo dentro da própria cadeia da construção. Na avaliação de Marcello José Abbud, o gargalo não é tecnológico, mas de articulação: falta conectar a oferta de agregados reciclados à demanda de obras públicas e privadas que poderiam absorvê-los em escala.
O papel das obras públicas na criação de mercado para reciclados
O setor público é o maior contratante de obras de infraestrutura do país e, por isso, detém poder decisivo para induzir o mercado de agregados reciclados. A inclusão de exigências de uso de material reciclado em editais de licitação de pavimentação, drenagem e edificações cria demanda garantida, viabiliza as usinas de reciclagem e fecha o circuito da economia circular na construção.
Diante desse cenário, Marcello José Abbud pondera que políticas de compras públicas sustentáveis funcionam como alavanca para todo o setor, pois a escala das obras governamentais é capaz de tornar economicamente atrativa uma cadeia que, deixada apenas ao mercado privado, avança de forma lenta e desigual.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez





